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O RPPS precisa sair do gabinete e se aproximar do servidor

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Servidor público recebe orientação previdenciária durante atendimento presencial em uma unidade de RPPS.

O Regime Próprio de Previdência Social administra uma das maiores responsabilidades de um ente federativo: proteger previdenciariamente os servidores públicos titulares de cargos efetivos, seus aposentados, pensionistas e dependentes. Apesar da relevância dessa missão, muitos segurados passam praticamente toda a vida funcional sem compreender como o regime funciona, quem participa das decisões, onde os recursos são aplicados e quais medidas estão sendo adotadas para garantir o pagamento dos benefícios no futuro.

A relação costuma se intensificar apenas quando surge uma obrigação ou um problema. O servidor é chamado para atualizar o cadastro, realizar a prova de vida, apresentar documentos, compreender uma reforma previdenciária ou suportar o aumento de uma contribuição. Fora desses momentos, o RPPS permanece distante, encerrado em relatórios, sistemas, reuniões técnicas e procedimentos administrativos que raramente chegam ao conhecimento de quem financia e depende do regime.

É preciso colocar o dedo nessa ferida: em muitos entes federativos, o RPPS ainda é mais conhecido pelo que cobra do servidor do que pela proteção que oferece.

Isso não significa que as unidades gestoras sejam inativas. Ao contrário, muitas equipes trabalham sob forte pressão, lidando diariamente com concessão e manutenção de benefícios, investimentos, atuária, contabilidade, compensação previdenciária, controle interno, governança e prestação de informações aos órgãos de fiscalização. O problema é que esse esforço quase sempre permanece invisível.

O servidor vê o desconto no contracheque, mas não enxerga a gestão das contribuições. Ouve falar em déficit, mas não recebe uma explicação clara sobre suas causas. Sabe que existe um conselho, mas desconhece quem são os seus integrantes e quais decisões tomam. Escuta que os recursos estão investidos, mas não compreende onde, por que e com quais resultados.

Aquilo que não é compreendido dificilmente é valorizado. E aquilo que não é explicado tende a ser preenchido por desconfiança, boatos e interpretações incompletas.

A primeira mudança necessária, portanto, é cultural. O servidor não pode continuar sendo tratado como um visitante que procura o RPPS apenas para solicitar uma aposentadoria ou resolver uma pendência. Ele é segurado, contribuinte, destinatário da proteção previdenciária e interessado direto na sustentabilidade do sistema.

O servidor não está fora do RPPS. Ele é parte do RPPS.

Essa compreensão deveria orientar o atendimento, a comunicação, a transparência e a própria governança. No entanto, ainda se percebe uma relação excessivamente unilateral: a unidade gestora informa o que decidiu, solicita o que precisa e responde quando é provocada. Falta construir um diálogo permanente, iniciado antes do surgimento do conflito.

O Manual do Pró-Gestão RPPS, cuja versão 4.1 foi disponibilizada oficialmente em abril de 2026, reforça uma concepção de gestão fundada em controles internos, governança corporativa e educação previdenciária. Isso evidencia que administrar um regime próprio não significa apenas processar benefícios ou cumprir obrigações perante os órgãos de supervisão. Significa também prestar contas, capacitar, comunicar, ouvir e aprimorar continuamente a relação com os segurados.

O problema é que, em muitos casos, transparência ainda é confundida com publicação de documentos. Uma avaliação atuarial é colocada no portal, a Política de Investimentos é disponibilizada em formato PDF, as atas dos conselhos são inseridas em uma página e a obrigação é considerada cumprida.

Do ponto de vista formal, pode haver publicidade. Do ponto de vista do servidor, pode não haver compreensão alguma.

Uma avaliação atuarial com dezenas de páginas, repleta de hipóteses, projeções e expressões técnicas, não se torna acessível apenas porque foi publicada. O mesmo ocorre com demonstrativos contábeis, relatórios de investimentos e documentos de governança.

A transparência somente se completa quando o segurado consegue entender o que está sendo apresentado. Isso exige explicar, em linguagem direta, qual é a situação do regime, quais riscos foram identificados, como os recursos estão sendo administrados, que decisões foram tomadas e quais consequências podem surgir.

Não se trata de substituir o documento técnico por uma versão simplificada. O documento integral deve permanecer disponível. O que precisa existir é uma ponte entre o relatório e o cidadão.

O RPPS pode informar, por exemplo, quanto possui em recursos, onde esses valores estão investidos, qual foi a rentabilidade do período, qual era a meta e quais fatores explicam eventual resultado inferior. Pode apresentar a avaliação atuarial esclarecendo o que significa déficit, como ele se forma e quais medidas estão previstas para enfrentá-lo. Pode divulgar as decisões dos conselhos sem obrigar o servidor a percorrer atas extensas para descobrir o que realmente importa.

Essa tradução não reduz a seriedade da previdência. Ao contrário, fortalece sua legitimidade.

A linguagem técnica é indispensável entre especialistas, mas não pode se transformar em barreira institucional. Déficit atuarial, reserva matemática, plano de amortização, segregação de massas, meta atuarial e equilíbrio financeiro são conceitos necessários. O erro está em apresentá-los como se todos tivessem obrigação de dominá-los.

Linguagem simples não significa empobrecer a informação nem esconder a complexidade. Significa organizar o conteúdo para que o destinatário compreenda o problema, suas causas e seus efeitos.

Quando a unidade gestora não ocupa esse espaço, outras fontes ocupam. Uma dúvida não respondida rapidamente se transforma em mensagem de grupo, comentário de corredor ou interpretação política. Em pouco tempo, a versão não oficial circula com mais força do que qualquer manifestação institucional.

O RPPS precisa falar antes do boato, explicar antes da crise e manter presença antes de ser convocado a se justificar.

Essa presença começa no atendimento. Para a maioria dos segurados, a qualidade do regime não será avaliada inicialmente pelo nível de certificação, pelo conteúdo da Política de Investimentos ou pela sofisticação dos controles internos. Será percebida na experiência concreta de quem busca uma orientação.

O servidor quer saber onde deve comparecer, quais documentos precisa apresentar, quanto tempo o processo pode levar e como poderá acompanhá-lo. Parece elementar, mas ainda existem situações em que orientações variam conforme o atendente, documentos são solicitados repetidamente, processos não possuem acompanhamento claro e o interessado precisa insistir para descobrir em que etapa seu requerimento se encontra.

Um RPPS pode produzir relatórios impecáveis e ainda assim oferecer uma experiência ruim ao segurado. E, para quem está do outro lado do balcão, é essa experiência que ficará na memória.

A solução passa pela organização da jornada previdenciária. O relacionamento deve começar no ingresso do servidor, e não às vésperas da aposentadoria. O recém-empossado precisa compreender a natureza do regime, suas contribuições, seus direitos, seus deveres e a importância de manter os dados atualizados. Ao longo da carreira, deve ter condições de conferir informações funcionais e previdenciárias. Na proximidade da aposentadoria, precisa encontrar orientação qualificada. Depois da concessão do benefício, deve continuar sendo atendido, informado e respeitado.

Esperar que o servidor procure espontaneamente o RPPS depois de trinta anos de serviço é admitir que a instituição desperdiçou três décadas de relacionamento.

Também não se pode exigir que todos se desloquem até a sede da unidade gestora. Muitos servidores trabalham em escolas, hospitais, postos de saúde, garagens, áreas rurais e repartições distantes. A aproximação exige presença nos locais de trabalho.

Um programa de atendimento itinerante pode levar orientação às secretarias e unidades administrativas, esclarecer dúvidas, divulgar canais oficiais, identificar inconsistências cadastrais e encaminhar casos que exigem análise individual. A iniciativa não precisa substituir o atendimento regular, mas pode alcançar públicos que dificilmente participariam de uma palestra ou procurariam a sede do regime.

A aproximação, contudo, não se resume a comunicar e atender. É necessário ouvir — e demonstrar o que foi feito com aquilo que foi ouvido.

Pesquisas, ouvidorias e audiências públicas perdem credibilidade quando as manifestações desaparecem dentro da estrutura administrativa. O servidor responde a um questionário, apresenta uma sugestão ou registra uma reclamação, mas não recebe retorno sobre as medidas adotadas.

Perguntar sem responder transforma a escuta em encenação.

A ouvidoria precisa funcionar como instrumento de gestão. Se várias pessoas apresentam a mesma dúvida, talvez o problema não esteja nos usuários, mas na forma como a instituição comunica. Se os atrasos se concentram em determinada etapa, é preciso revisar o fluxo. Se uma reclamação reaparece todos os meses, não basta respondê-la individualmente; é necessário enfrentar sua causa.

O mesmo vale para as audiências públicas. Reunir pessoas, apresentar uma sequência de gráficos e recolher assinaturas não garante participação. A audiência deve ser preparada com antecedência, divulgada adequadamente e conduzida em linguagem acessível. As perguntas precisam ser respondidas e as sugestões analisadas.

Após o evento, o RPPS deveria informar quais questões foram levantadas, quais providências serão tomadas e quais propostas não poderão ser acolhidas, acompanhadas das respectivas justificativas. A participação somente se torna colaborativa quando o segurado percebe que sua manifestação pode produzir algum efeito.

A representação nos conselhos também precisa ser fortalecida. O representante dos servidores não deve ocupar uma cadeira apenas para compor formalmente o colegiado. Deve receber capacitação, ter acesso tempestivo aos documentos, formular questionamentos, acompanhar a execução das decisões e prestar contas aos representados.

Conselhos previdenciários não existem para homologar automaticamente aquilo que já foi decidido. Existem para deliberar, fiscalizar, acompanhar e contribuir para a governança.

A Portaria MTP nº 1.467, de 2 de junho de 2022, reúne parâmetros e diretrizes gerais para a organização e o funcionamento dos RPPS da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, inserindo a atuação de dirigentes, conselheiros e demais agentes em um ambiente de elevada responsabilidade institucional. Essa responsabilidade exige conhecimento técnico, mas também compromisso com transparência, independência e prestação de contas.

Nada disso será duradouro se depender apenas da disposição pessoal de um dirigente ou de uma equipe. A aproximação precisa ser institucionalizada por meio de um plano permanente de relacionamento com os segurados, integrado ao planejamento e às ações de educação previdenciária.

Esse plano não precisa nascer sofisticado. Pode começar com uma carta de serviços clara, canais de atendimento organizados, perguntas frequentes baseadas em dúvidas reais, boletins periódicos, visitas aos órgãos, encontros com aposentados e orientação para servidores próximos da aposentadoria.

O essencial é haver continuidade, responsáveis definidos e avaliação dos resultados.

A quantidade de publicações em redes sociais não é indicador suficiente de aproximação. É preciso medir o tempo de atendimento, o percentual de demandas resolvidas, o nível de satisfação, a recorrência das reclamações, a participação nas ações, o conhecimento dos segurados sobre o regime e a confiança na gestão.

As respostas podem ser desconfortáveis. Justamente por isso são valiosas.

Também é necessário deixar claro que uma relação colaborativa não retira a responsabilidade do servidor. O segurado deve manter seus dados atualizados, consultar fontes oficiais, acompanhar seus representantes e participar das ações promovidas. Contudo, não se pode cobrar participação de quem nunca foi devidamente informado, convidado ou ouvido.

A iniciativa deve partir da instituição que possui os dados, os profissionais e o dever de prestar contas.

A aproximação não pode ser transformada em campanha para melhorar a imagem do RPPS. Seu objetivo não é convencer o servidor de que tudo está bem. É permitir que ele conheça a situação real, inclusive quando existem dificuldades.

Se há déficit, ele deve ser explicado. Se o resultado dos investimentos ficou abaixo da meta, as causas precisam ser apresentadas. Se um processo atrasou, o segurado merece saber o motivo e quais providências estão sendo tomadas.

Relacionamento não é maquiagem.

A sustentabilidade de um RPPS depende de legislação adequada, equilíbrio financeiro e atuarial, regularidade das contribuições, gestão responsável dos recursos e controles eficientes. Mas depende também de legitimidade. E a legitimidade cresce quando o servidor compreende o sistema, acompanha sua gestão e encontra coerência entre aquilo que a instituição declara e aquilo que efetivamente pratica.

O RPPS precisa sair do gabinete não para abandonar o rigor técnico, mas para colocá-lo a serviço de quem realmente importa. Precisa transformar relatórios em informações compreensíveis, processos em serviços acessíveis e canais formais em espaços reais de diálogo.

A previdência pública é feita de normas, cálculos, contribuições, investimentos e controles. Sua razão de existir, porém, continua sendo profundamente humana: proteger a dignidade de quem dedicou sua vida ao serviço público. Se o servidor não consegue perceber essa proteção, algo entre a missão institucional e a realidade cotidiana precisa ser urgentemente corrigido.